Durante a transição de carreira, combine reflexão com ação!

Ram Charan, em seu livro Liderança na era da turbulência econômica, relata a história de uma grande empresa de Wall Street. Quando dois de seus empregados voltavam do almoço, no outono americano de 2008, um deles passou o cartão de acesso pela catraca e conseguiu entrar. O outro não. Quando o primeiro empregado usou seu cartão para deixar o colega entrar, um guarda da segurança abordou os dois. Disse ao primeiro que poderia subir, mas o segundo foi informado de que, a partir das 12 horas daquele dia, não trabalhava mais para a empresa. Deveria falar com uma pessoa do RH, na sala 312, para mais informações.

Para Charan, a despeito das necessidades de cortes de pessoal, as empresas precisam evitar o que denominou de “cruel política” de recursos humanos. Bem, neste caso, que política? Que recursos “humanos”?

É claro que a experiência da demissão determinará o grau de dificuldade que o indivíduo terá em sua transição. Histórias assim não ajudam em nada! Haverá dor, tristeza e ressentimento para cuidar.

Depois da demissão é preciso trabalhar na sua transição

Existem pessoas em transição que não precisam esperar nada para iniciar seus movimentos de mercado e seus contatos, com vistas a um novo passo em suas carreiras. Há outros indivíduos – como no caso do funcionário bloqueado pela catraca, certamente – que precisam dar um passo para trás, recolher as correntes da mágoa para então postular uma nova posição no mercado. Nestes casos, o início da transição pressupõe uma etapa de reflexão. Mas refletir sobre o quê?

Na verdade, todos podem se beneficiar de uma boa reflexão, sobretudo quando relacionada a dois objetivos claros: ampliar autoconhecimento e buscar clareza quanto à visão de futuro. Esse é um túnel pelo qual entramos e em cujo trecho final enxergamos a decisão do nosso próximo passo.

É na fase de reflexão que revisitamos nossa história de vida, que nos permite identificar crenças alavancadoras e restritivas que construímos em razão das diferentes experiências em nossa biografia. É nesta etapa que exercitamos a reflexão sobre nossos estilos e motivadores, nossas satisfações, insatisfações, características pessoais, competências e realizações. De igual modo, este é o momento para ampliar a consciência sobre valores e interesses próprios. Tudo isso torna mais nítido o futuro preferido, que deve ser desejado, idealizado e planejado, tendo nosso propósito de vida como “guarda-chuva” das escolhas que faremos pelo caminho.

Uma boa transição passa por experimentos práticos

É fácil perceber o benefício que tiramos de uma boa reflexão. Precisamos, no entanto, estar alertas para que a reflexão:

1) não sirva de desculpa para não agir e seguir em frente;

2) não esconda nossas reações emocionais diante da transição.

Uma boa dica a esse respeito é sugerida por Herminia Ibarra, em Identidade de carreira. Essa professora, com a autoridade de alguém que lecionou comportamento organizacional em Harvard, Yale e Insead, sugere que a fase de reflexão seja acompanhada por experiências práticas, que possibilitem ao indivíduo testar novas atividades, novos relacionamentos e possíveis novas narrativas para sua continuidade da carreira.

O principal argumento é o de que sabemos quem somos quando vemos o que fazemos, ou seja, o autoconhecimento é mais pleno quando a reflexão vem acompanhada por testes e experiências investigatórias e exploratórias. Trata-se do método “testar e aprender”, ou “conhecer-fazer”, capaz de construir autoconhecimento por meio de experiências práticas e interações com outros indivíduos. Como escreveu Herminia:

“O aprendizado é circular e interativo; praticamos ações, um passo de cada vez, e respondemos às consequências dessas ações até que um padrão inteligível eventualmente comece e se formar. O autoconhecimento necessário não é nem uma “verdade interna” nem um “dado a ser computado” que possa iluminar o caminho no início do processo; é mais informação tangível sobre nós mesmos em relação a possibilidades específicas – informação que se acumula e se desenvolve durante todo o processo de aprendizado.” 

Em outras palavras, aja enquanto planeja! Não fique paralisado diante de um megaplano teórico. Combine ação com planejamento. Faça experimentos e busque pequenas e importantes vitórias. As maiores lições e pistas virão dessas experiências e dos relacionamentos que construir em torno delas.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/durante-transição-de-carreira-combine-reflexão-com-ação-rogério-chér

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